Escala 6×1 ainda atinge 14,8 milhões de brasileiros e concentra maior impacto em transporte, hotelaria, alimentação e comércio

O debate sobre o fim da escala 6×1 voltou ao centro das discussões trabalhistas no Brasil após novos dados do Dieese revelarem a dimensão do modelo de jornada que ainda domina grande parte do mercado de trabalho brasileiro. Segundo o levantamento, aproximadamente 14,8 milhões de trabalhadores formais no país atuam sob o regime de seis dias consecutivos de trabalho para apenas um dia de descanso, o equivalente a 33,2% dos trabalhadores ocupados.

A discussão ganhou força diante da tramitação, no Congresso Nacional, de propostas que buscam alterar a jornada semanal de trabalho no Brasil. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê mudanças na escala 6×1 deve voltar à pauta da Câmara dos Deputados nos próximos dias após pressão de parlamentares ligados à extrema direita ter adiado a leitura do parecer inicial.

Os números divulgados pelo Dieese mostram que o problema está longe de ser pontual. O levantamento revela que 64% dos trabalhadores formais brasileiros possuem jornadas superiores a 40 horas semanais e cerca de 75% dos trabalhadores celetistas trabalham acima desse limite. Além disso, aproximadamente 20 milhões de brasileiros cumprem jornadas entre 45 e 48 horas semanais ou até superiores.

Os setores mais afetados pela escala 6×1 são justamente aqueles que operam de forma contínua e exigem funcionamento diário, inclusive aos finais de semana e feriados. Segundo os dados do Dieese, o transporte aéreo lidera o ranking nacional de incidência da jornada 6×1, atingindo 53,2% dos trabalhadores do setor. Logo em seguida aparecem os serviços de alojamento, como hotéis e hospedagens, com 52% dos profissionais submetidos ao modelo.

Os serviços de alimentação também aparecem entre os mais impactados, com 47,1% dos trabalhadores atuando sob a escala 6×1. O comércio completa a lista dos setores com maior incidência, atingindo 42,2% dos trabalhadores.

Na prática, os números revelam a realidade de milhões de trabalhadores de supermercados, restaurantes, bares, farmácias, shopping centers, hotéis, aeroportos, telemarketing, logística e atendimento ao público, setores marcados por forte pressão operacional, baixos salários, alta rotatividade e desgaste físico e mental constante.

Especialistas em saúde do trabalho alertam que jornadas prolongadas e descanso reduzido estão diretamente associados ao aumento de casos de ansiedade, depressão, síndrome de burnout, hipertensão, doenças musculares e acidentes de trabalho. A sobrecarga também afeta diretamente o convívio familiar, a saúde mental e a qualidade de vida dos trabalhadores.

O avanço da automação e da inteligência artificial também passou a influenciar diretamente esse debate. Centrais sindicais argumentam que empresas vêm aumentando produtividade há décadas com redução gradual de postos de trabalho, mas sem repassar parte desses ganhos para a melhoria das condições de vida da população trabalhadora.

Enquanto sindicatos defendem a redução gradual da jornada sem redução salarial, setores empresariais demonstram forte resistência às mudanças. Entidades ligadas ao comércio, turismo e serviços afirmam que uma eventual redução abrupta da jornada poderia elevar significativamente os custos operacionais das empresas.

Estudos apresentados por entidades empresariais apontam que uma redução da jornada para 40 horas semanais poderia gerar aumento de até 21% na folha salarial do comércio e bilhões de reais em custos adicionais nos setores de serviços, turismo e transporte. No setor de transporte, por exemplo, estimativas indicam impacto superior a R$ 11 bilhões no longo prazo.

Mesmo assim, defensores da mudança argumentam que experiências internacionais mostram que a redução gradual da jornada pode aumentar produtividade, melhorar o bem-estar da população e reduzir afastamentos por doenças ocupacionais. Empresas que já adotaram modelos alternativos, como escalas 5×2, relatam melhora no engajamento e na satisfação dos funcionários.

A pauta também ganhou forte mobilização popular nas redes sociais e passou a integrar manifestações de sindicatos, movimentos sociais e parlamentares ligados ao campo progressista. O governo Lula vem tratando a redução da jornada como uma das principais discussões trabalhistas da atual legislatura.

Ao mesmo tempo, parlamentares conservadores e representantes do empresariado defendem transições longas e negociações setoriais para evitar impactos econômicos bruscos. Parte das propostas discutidas no Congresso prevê implementação gradual ao longo de vários anos.

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