Doc Teko Porã sobre a cultura guarani é premiado em Berlim

Imagine entrar em uma aldeia indígena no meio da Mata Atlântica, acompanhar uma família no preparo da comida, assistir ao Ano Novo Guarani, ouvir os cantos sagrados, ver crianças subindo em árvores descalças, e descobrir que tudo isso acontece a menos de três horas de São Paulo? É o que retrata o documentário “Teko Porã: Retrato Atual da Vida Cotidiana na Aldeia Guarani Rio Silveira”, que acaba de ser premiado na 15ª edição do Berlin Women Cinema Festival, realizado em Berlim e qualificatório para o IMDb.
Gravado na Aldeia Rio Silveira, no litoral norte de São Paulo, o longa-metragem apresenta um retrato contemporâneo do cotidiano do povo Guarani Mbya, aproximando o público de suas tradições, espiritualidade, relações familiares e transformações sociais.
“A conquista reforça o interesse cada vez maior pelas narrativas dos povos originários e pela potência do cinema indígena, levando para outros países histórias, culturas e modos de vida diferentes, que precisam ser vistos, respeitados e valorizados”, afirma a diretora do Luciana Alves. O filme, que tem codireção do cacique Adolfo Timotio, teve apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativa do Estado de São Paulo, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e do Sistema Nacional de Cultura do Ministério da Cultura (MinC).
Documentário propõe imersão na cultura guarani
O filme conduz o espectador por uma experiência imersiva dentro da aldeia Rio Silveira, localizada na divisa entre Bertioga e São Sebastião, situada em meio à Mata Atlântica. A produção acompanha o preparo de alimentos, os cantos sagrados, celebrações tradicionais e momentos do cotidiano das famílias indígenas.
Com 80 minutos de duração, o filme mergulha no cotidiano do povo Guarani Mbya. Celebrações, tradições e a riqueza do bioma onde estão inseridos dividem espaço com os desafios enfrentados: pressão imobiliária, influência da cultura não indígena, necessidade de geração de renda e preservação cultural.
O lançamento oficial ocorreu em Jundiaí, no interior paulista, e teve ainda uma exibição especial durante a Semana dos Povos Indígenas, em sessão realizada dentro da própria Aldeia Rio Silveira.
Aldeia indígena próxima à capital paulista
A Aldeia Rio Silveira integra um território indígena que abriga cinco aldeias próximas à Riviera de São Lourenço. Apesar da proximidade com grandes centros urbanos e destinos turísticos do litoral paulista, a comunidade ainda permanece pouco conhecida.
“Muitas pessoas viam nas mídias sociais o que a gente compartilhava e achavam que estávamos no Xingu, na Amazônia, porque tem as tradições, tem o artesanato muito forte, a pintura corporal, o verde da Mata Atlântica é lindo, as músicas…”, conta Luciana Alves. “Não, eu estou gravando aqui, no litoral de São Paulo, duas horas e meia da minha casa.”
Segundo a diretora, essa percepção revela como a cultura guarani ainda permanece invisível para grande parte da sociedade, mesmo sendo ainda bastante preservada e estando geograficamente próxima.
Valorização do protagonismo indígena
As gravações aconteceram ao longo de mais de um ano, com cerca de 20 diárias dentro da aldeia. O processo de aproximação foi gradual, permitindo que a equipe conquistasse a confiança da comunidade e registrasse aspectos mais profundos da vida cotidiana indígena.
“Eu decidi não colocar locução assim como as minhas impressões. Quis dar protagonismo a eles, ampliar a voz deles”, explica Luciana.
A trilha sonora do filme também reforça esse protagonismo cultural. Todas as músicas foram gravadas na própria aldeia e interpretadas pelos indígenas. “Quando a gente começou a gravar, sempre tinha música. Foi então que decidi valorizar as canções, a tradição deles”, conta.
Além dos cantos tradicionais, o documentário incorpora os sons da floresta, dos animais e também da convivência com o mundo urbano contemporâneo, ou seja, também os sons inesperados: o carro do gás, o vendedor de sorvete, a vida que pulsa entre dois mundos.
Fotografia do filme
A direção de fotografia do documentário combina imagens aéreas da aldeia, captadas com drone, da Mata Atlântica e do litoral norte paulista com registros detalhados. O diretor de fotografia Claudio Alves destaca que a proposta visual era transmitir a atmosfera real da aldeia.
“A preocupação não era captar só imagens bonitas. Queríamos registrar ‘a alma’ daquele lugar. Mostrar a grandiosidade da paisagem, mas também os pequenos detalhes que muitas vezes passam despercebidos: a luz entrando na mata, o orvalho nas folhas, os animais, as crianças correndo, os olhares durante as entrevistas. Tudo isso compõe a força visual e emocional do documentário”, afirma Claudio Alves.Entre a tradição e o celular
O longa também aborda as transformações sociais vividas pelas novas gerações indígenas. O povo Guarani Mbya retratado no filme mantém práticas espirituais e culturais tradicionais enquanto convive com escola, tecnologia, celular e atividades econômicas ligadas ao artesanato.
O papel das mulheres indígenas ganha destaque ao longo da narrativa, trazendo diferentes perspectivas sobre família, identidade cultural e desafios contemporâneos.
“Eles vivem entre essa questão cultural de manter as tradições dos povos originários, mas também com toda a necessidade de pagar conta, de estudar, da tecnologia, do celular que está lá, latente na aldeia. Uma das imagens emblemáticas é de um guarani com um cachimbo, que faz parte da conexão espiritual deles, e o celular na outra mão. Então eles vivem entre esses dois mundos”, descreve a diretora.
O encerramento do documentário reforça uma das principais reflexões da obra: para os povos indígenas, o território é muito mais do que terra, é sobrevivência.
Ficha Técnica
Direção: Luciana Alves
Codiretor: Adolfo Timotio
Roteiro: Luciana Alves
Pesquisa: Andre Pereira e Mariana Alves
Produção Executiva: Luciana Alves
Produção: Mariana Alves
Produção Local: Marina Fernandes Timotio e Marcio Fernandes Timotio
Assistente de Produção: Ariel Lobo e Maria Luiza Silva Espírito Santo
Direção de Fotografia: Claudio Alves
Montagem: Ariel Lobo
Edição de Texto: Mariana Alves
Operação de Câmera: Claudio Alves, Rafael Ramiro e Raphael Gomes
Câmera Adicional: Luciana Alves, Sariel e Marina Timotio
Drone / Operador de Drone: Raphael Gomes
Fotografia / Assistente Técnico: Bruno Cavalcanti
Colorista / Correção de Cor: Larissa Abrunhosa
Motion Graphics / Animações: Ariel Lobo
Legendas: Andre Pereira
Produção de Audiodescrição: Audeostudio
Roteiro e Narração de Audiodescrição: Raimundo Deodato
Libras: Educalibras
DCP / Masterização: Ariel Lobo
Som Direto: Cesar Antunha
Edição de Som: Cesar Antunha e Ariel Lobo
Finalização de Áudio / Mixagem: Cesar Antunha
Consultoria Cultural Indígena: Adolfo Timotio e Andre Pereira
Tradução (Guarani – Português): Marisa Fernandes Timotio e Marcinho Mirim Dju Fernandes Timotio
Social Media: Julia Canineo
Designer Gráfico: Carolina Lima, Joab Linhares e Maria Luiza Espírito Santo









