PF aponta repasses milionários de Vorcaro a Ciro Nogueira

A Polícia Federal identificou indícios de que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) teria recebido ao menos R$ 6 milhões em repasses periódicos ligados ao empresário Daniel Vorcaro, investigado por supostas fraudes bilionárias no sistema financeiro nacional. As informações constam em documentos encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito das investigações que envolvem o Banco Master.
Segundo os relatórios da PF, mensagens trocadas entre Vorcaro e integrantes de seu círculo de confiança revelam a existência de pagamentos mensais destinados a empresas ligadas à família do senador. Os investigadores afirmam que os diálogos demonstram não apenas a continuidade dos repasses, mas também a preocupação do empresário em garantir que os pagamentos fossem mantidos mesmo durante períodos de crise financeira.
“Os diálogos analisados demonstram ciência, anuência e prioridade atribuída por Vorcaro à manutenção desses repasses”, registra um dos documentos produzidos pela Polícia Federal.
As apurações indicam que os pagamentos teriam começado em valores mensais de R$ 300 mil e posteriormente alcançado R$ 500 mil por mês. O total estimado dos repasses identificados entre junho de 2024 e agosto de 2025 supera R$ 6 milhões.
As mensagens analisadas envolvem Daniel Vorcaro e seu primo, Felipe Vorcaro, apontado pelos investigadores como operador de parte das operações financeiras do grupo. Em uma das conversas, Felipe pergunta se deveria continuar com uma determinada “parceria” envolvendo empresas identificadas pelas siglas BRGD e CNLF. Daniel responde afirmativamente.
A BRGD pertence à família Vorcaro. Já a CNLF é vinculada à família do senador Ciro Nogueira.
Em outro diálogo, ocorrido já em meio à crise enfrentada pelo Banco Master, Daniel demonstra irritação ao descobrir que os pagamentos destinados ao senador teriam sofrido atraso.
“Cara, eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?”, escreveu o empresário, segundo a transcrição apresentada pela PF.
Na sequência, Felipe questiona se os pagamentos continuariam em R$ 500 mil ou poderiam retornar ao patamar anterior de R$ 300 mil, reforçando a interpretação dos investigadores de que houve aumento nos valores repassados.
Além dos supostos pagamentos mensais, a Polícia Federal afirma ter encontrado indícios de uma relação financeira mais ampla entre Vorcaro e o senador. Entre os elementos analisados aparecem despesas com hotéis de luxo em Nova York e na Europa, utilização de aeronaves privadas e registros de pagamentos que teriam sido realizados em dinheiro vivo.
Planilhas apreendidas durante a investigação contêm anotações como “Espécie Ciro 350K”, interpretadas pelos investigadores como referência a entregas de valores em espécie destinadas ao parlamentar.
A investigação também aponta para possíveis mecanismos de ocultação e dissimulação de recursos por meio de empresas ligadas à família de Ciro Nogueira. Segundo a PF, companhias como a CN Motos e a CNLF teriam sido utilizadas para movimentações financeiras consideradas incompatíveis com sua estrutura operacional e capacidade econômica declarada.
Os investigadores afirmam ter identificado depósitos frequentes em espécie, muitas vezes fracionados, padrão frequentemente associado a tentativas de dificultar o rastreamento de recursos pelo sistema financeiro.
Outro ponto destacado pela Polícia Federal envolve uma operação societária considerada suspeita. Segundo o relatório, a empresa CNLF adquiriu 30% de participação na Green Investimentos S.A. por cerca de R$ 1 milhão, apesar de a fatia possuir valor estimado em aproximadamente R$ 12,9 milhões.
A PF classifica a operação como realizada com “expressivo deságio” e afirma que o negócio foi formalizado por meio de contrato particular, sem os registros normalmente observados em operações dessa natureza.
Para os investigadores, a transação poderia ter servido para criar uma estrutura destinada a transferir dividendos de forma aparentemente regular ao senador. Apenas no primeiro ano, os rendimentos projetados dessa participação poderiam alcançar cerca de R$ 720 mil.
Com base no conjunto das evidências reunidas até o momento, a Polícia Federal afirma ter identificado indícios dos crimes de corrupção ativa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
Os investigadores solicitaram ainda a suspensão das atividades de empresas apontadas como parte da estrutura financeira sob investigação, incluindo a CNLF Empreendimentos Imobiliários, a Green Investimentos S.A., a Green Energia Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia e a BRGD.
Até a publicação das informações, o senador Ciro Nogueira não havia se manifestado publicamente sobre as conclusões apresentadas pela Polícia Federal. As investigações seguem em andamento e os fatos ainda serão analisados pelas instâncias competentes do Judiciário.









