Primeiro paciente se recupera de surto de ebola no Congo enquanto OMS reforça combate à doença

A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou uma notícia considerada histórica no enfrentamento ao atual surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC). Pela primeira vez desde o início da epidemia, um paciente diagnosticado com a doença recebeu alta hospitalar após se recuperar completamente da infecção.
O anúncio foi feito nesta sexta-feira (30) pela especialista em febres hemorrágicas virais da OMS, Anaïs Legand. Segundo ela, o paciente deixou o hospital após apresentar dois testes consecutivos com resultado negativo para o vírus.
A recuperação representa um importante sinal de esperança em meio ao avanço da epidemia, declarada emergência sanitária internacional pela OMS poucos dias após a identificação dos primeiros casos, em meados de maio.
Embora ainda não exista uma vacina aprovada nem tratamento específico para a cepa Bundibugyo do vírus Ebola, responsável pelo atual surto, especialistas destacam que o diagnóstico rápido e o acesso precoce aos cuidados médicos aumentam significativamente as chances de sobrevivência dos pacientes.
“Esperamos que mais pessoas consigam se recuperar”, afirmou Legand ao comentar o caso.
Mortalidade ainda preocupa autoridades sanitárias
Apesar da notícia positiva, a OMS alerta que o cenário continua preocupante.
Segundo os dados disponíveis até o momento, a taxa de mortalidade da cepa Bundibugyo varia entre 30% e 50% dos casos confirmados. Isso significa que até metade dos pacientes infectados pode não sobreviver à doença.
A organização ressalta que os números ainda são preliminares e podem sofrer alterações conforme novas investigações epidemiológicas sejam concluídas.
Mais de 900 casos suspeitos são investigados
A República Democrática do Congo concentra atualmente o maior número de casos relacionados ao surto.
Segundo a OMS, já foram registrados 906 casos suspeitos da doença no país. Desse total, 125 infecções foram confirmadas laboratorialmente e 17 mortes já tiveram relação comprovada com o vírus.
Outras 223 mortes seguem sob investigação para determinar se foram provocadas pelo ebola.
Os casos estão concentrados principalmente nas províncias de Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul, regiões que historicamente enfrentam dificuldades de infraestrutura e acesso aos serviços de saúde.
Uganda também registra avanço da doença
O surto já ultrapassou as fronteiras congolesas e atingiu o vizinho Uganda.
Até o momento, nove casos foram registrados no país africano, incluindo uma morte confirmada. Apenas nesta sexta-feira, duas novas infecções foram notificadas na capital, Kampala.
As autoridades internacionais acreditam que o número real de casos pode ser superior ao oficialmente registrado, já que muitos locais afetados possuem capacidade limitada para realizar exames laboratoriais e confirmar diagnósticos.
OMS descarta restrições de viagens
Mesmo diante do avanço da doença, a Organização Mundial da Saúde não recomenda, neste momento, o fechamento de fronteiras ou restrições internacionais de deslocamento.
A orientação contrasta com algumas medidas adotadas por governos locais. Uganda chegou a fechar temporariamente sua fronteira com a República Democrática do Congo, enquanto a Itália solicitou reforço na vigilância de viajantes procedentes das áreas afetadas.
Para a OMS, o controle da epidemia depende principalmente do fortalecimento das ações de vigilância epidemiológica e rastreamento de contatos.
Entre as medidas consideradas mais eficazes estão a identificação precoce de casos suspeitos, o isolamento de pacientes infectados, o monitoramento de pessoas expostas ao vírus e a realização de funerais seguros para evitar novas transmissões.
Diretor da OMS visita áreas afetadas
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, está na República Democrática do Congo para acompanhar de perto a situação.
Após chegar à capital Kinshasa, ele deverá visitar a província de Ituri, considerada o principal epicentro da atual epidemia.
Em mensagem divulgada nas redes sociais, Tedros afirmou que a comunidade internacional continuará apoiando os esforços de contenção da doença e garantiu à população congolesa que ela não está sozinha diante da crise.
Vacinas e tratamentos entram em fase de avaliação
Em paralelo ao combate ao surto, a OMS anunciou que grupos internacionais de especialistas recomendaram a realização de ensaios clínicos com vacinas e tratamentos considerados promissores contra a cepa Bundibugyo.
Entre os produtos que deverão ser avaliados estão anticorpos monoclonais, medicamentos antivirais e vacinas experimentais desenvolvidas especificamente para combater a variante atualmente em circulação.
Os estudos serão conduzidos em parceria com autoridades sanitárias da República Democrática do Congo e de Uganda.
Apesar dos avanços científicos, a OMS reforça que a principal estratégia para conter a epidemia continua sendo a prevenção.
“A prioridade neste momento é interromper a transmissão por meio das ferramentas que já demonstraram eficácia ao longo de décadas de combate ao ebola”, destacou a organização.
Para os especialistas, a recuperação do primeiro paciente mostra que a doença pode ser vencida quando o atendimento médico ocorre de forma rápida e adequada. No entanto, o controle definitivo da epidemia ainda dependerá da capacidade das autoridades de ampliar a vigilância e impedir o surgimento de novas cadeias de transmissão.










