Brasil contesta tarifaço dos EUA

O governo brasileiro intensificou a ofensiva diplomática contra as novas ameaças tarifárias dos Estados Unidos e voltou a contestar os argumentos apresentados pela administração de Donald Trump para justificar medidas comerciais contra produtos nacionais.
Neste sábado (4), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou ter demonstrado às autoridades norte-americanas que as acusações utilizadas para embasar a investigação comercial contra o Brasil carecem de fundamento e não justificam qualquer tipo de sanção econômica.
A declaração foi feita após reunião com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, durante encontro ministerial da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), realizado em Paris.
Segundo Vieira, o governo brasileiro apresentou informações técnicas e jurídicas para rebater todas as alegações feitas por Washington. O chanceler afirmou que o Brasil cumpriu sua parte nas negociações e espera que os esclarecimentos sejam considerados antes da adoção de qualquer medida que possa afetar a economia nacional.
O ministro também criticou a condução do processo pelo governo norte-americano. Segundo ele, os resultados preliminares das investigações foram divulgados antes do prazo que havia sido discutido entre os presidentes dos dois países durante encontro bilateral realizado em maio.
Para integrantes do governo brasileiro, a antecipação das conclusões reforça a percepção de que a investigação possui forte componente político e protecionista, repetindo uma estratégia já utilizada anteriormente pela Casa Branca para pressionar parceiros comerciais.
O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) recomendou a aplicação de tarifas de até 25% sobre produtos brasileiros, alegando a existência de práticas consideradas “desleais” ou “discriminatórias”. Entre os alvos da investigação estão o sistema de pagamentos PIX, políticas de comércio digital, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e ações relacionadas ao combate ao desmatamento ilegal.
Em Brasília, a avaliação é de que as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos extrapolam questões comerciais e representam uma tentativa de interferência em políticas internas brasileiras. O próprio governo já classificou parte das alegações como ingerência indevida em decisões soberanas do país.
Enquanto enfrenta a pressão de Washington, o Brasil busca ampliar sua articulação internacional. Durante a agenda em Paris, Mauro Vieira também se reuniu com autoridades da União Europeia, Canadá, Coreia do Sul, Espanha, Suíça e República Tcheca.
Entre os temas discutidos esteve a implementação do acordo entre Mercosul e União Europeia, considerado estratégico para reduzir a dependência comercial de mercados específicos e ampliar as oportunidades para exportações brasileiras.
A movimentação diplomática ocorre em um momento em que o governo Lula busca fortalecer relações multilaterais e diversificar parcerias econômicas, ao mesmo tempo em que reage ao avanço de medidas protecionistas adotadas por setores da política norte-americana.
Nos bastidores do Itamaraty, a avaliação é de que o Brasil não aceitará passivamente acusações consideradas infundadas e continuará utilizando os canais diplomáticos e jurídicos internacionais para defender sua economia, seus empregos e sua soberania comercial.









