Quando atacar professores vira projeto político

Por décadas, professores foram chamados de mestres, educadores, formadores de cidadãos. Hoje, em determinados setores da política brasileira, passaram a ser tratados como inimigos.
A declaração do vereador bolsonarista Lucas Pavanato, do PL, chamando professores de “vagabundos” durante uma sessão da Câmara Municipal, não foi um simples excesso verbal. Foi mais um capítulo de uma estratégia política que há anos tenta desmoralizar servidores públicos, enfraquecer a educação e transformar trabalhadores em alvos de guerra ideológica.
Quando um representante eleito utiliza a tribuna para ofender profissionais responsáveis pela formação de milhões de crianças e jovens, o problema deixa de ser apenas uma grosseria individual. O que está em jogo é a tentativa de destruir a credibilidade de uma categoria inteira.
E isso não acontece por acaso.
A história mostra que governos autoritários e movimentos de extrema direita costumam enxergar professores, universidades, pesquisadores e instituições de ensino como obstáculos. Afinal, educação produz pensamento crítico. E pensamento crítico incomoda quem prefere uma população obediente, desinformada e incapaz de questionar o poder.
Em São Paulo, os ataques aos educadores ocorrem justamente em um momento de crescente insatisfação dentro das escolas estaduais. Professores denunciam sobrecarga de trabalho, pressão por metas, excesso de burocracia, adoecimento psicológico, precarização das condições de ensino e perda de autonomia pedagógica.
Enquanto isso, o governo Tarcísio de Freitas vende a imagem de uma educação baseada em indicadores, plataformas digitais, produtividade e desempenho estatístico. Na prática, muitos profissionais relatam uma realidade bem diferente: escolas pressionadas por números, professores transformados em operadores de sistemas e uma pedagogia cada vez mais subordinada à lógica empresarial.
A educação deixa de ser vista como formação humana e passa a ser tratada como linha de produção.
O professor deixa de ser educador e passa a ser gestor de planilhas.
A sala de aula deixa de ser espaço de construção do conhecimento e passa a funcionar como um ambiente permanentemente monitorado por métricas.
Não surpreende que cresçam os casos de ansiedade, depressão, esgotamento emocional e adoecimento entre profissionais da educação.
Mas, em vez de discutir salários, valorização profissional, infraestrutura escolar ou saúde mental dos educadores, parte da extrema direita prefere apostar na humilhação pública.
Primeiro chamam professores de vagabundos.
Depois acusam universidades de doutrinação.
Em seguida atacam pesquisadores, cientistas e intelectuais.
Por fim, apresentam a destruição da educação pública como modernização.
O roteiro é conhecido.
O que torna a situação ainda mais absurda é que os mesmos grupos políticos que acusam professores de não querer trabalhar são frequentemente os primeiros a reclamar da baixa qualidade da educação brasileira.
Como melhorar a educação sem valorizar educadores?
Como formar bons profissionais sem garantir condições dignas de trabalho?
Como exigir resultados de quem é constantemente atacado, desrespeitado e desmoralizado?
A resposta é simples: não existe educação forte sem professores valorizados.
Nenhum aplicativo substitui um educador.
Nenhuma inteligência artificial substitui o vínculo construído dentro de uma sala de aula.
Nenhuma plataforma digital substitui a experiência humana de ensinar.
Quando professores vão às ruas, não estão lutando apenas por salários. Estão defendendo a sobrevivência da própria escola pública. Estão alertando para um modelo que transforma a educação em negócio e trata trabalhadores como peças descartáveis.
Talvez a maior ironia seja justamente essa.
Os que são chamados de vagabundos são, na verdade, aqueles que continuam sustentando um sistema cada vez mais pressionado, precarizado e abandonado.
E os que os insultam da tribuna raramente passam um único dia enfrentando uma sala lotada, uma jornada exaustiva ou a responsabilidade de formar as próximas gerações.
Atacar professores pode render curtidas nas redes sociais.
Mas nunca construiu uma sociedade melhor.
Muito menos uma educação de qualidade.










