Acordo entre EUA e Irã divide especialistas e expõe desgaste da estratégia de Trump

A assinatura do memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, realizada nesta quinta-feira (19), abriu uma nova fase nas relações entre os dois países e provocou intenso debate entre analistas internacionais. O documento prevê o fim das sanções econômicas contra Teerã, a liberação de ativos iranianos bloqueados no exterior, investimentos estimados em US$ 300 bilhões para a reconstrução do país e a reabertura do estratégico Estreito de Ormuz.

Em contrapartida, o governo iraniano reafirmou o compromisso de não desenvolver armas nucleares e concordou em retomar negociações sob supervisão internacional. O memorando também estabelece a interrupção das ações militares na região, incluindo operações relacionadas ao Líbano.

Para parte dos especialistas, o resultado representa uma importante vitória diplomática do Irã. O cientista político e especialista em geopolítica Ali Ramos avalia que o acordo praticamente devolve ao país persa os benefícios previstos no antigo Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), firmado durante o governo Barack Obama, mas com vantagens econômicas ainda maiores.

Segundo ele, os Estados Unidos fizeram concessões significativas sem obter mudanças substanciais na posição iraniana sobre seu programa nuclear. Na avaliação do analista, o acordo enfraquece a estratégia de pressão máxima defendida por Donald Trump e gera forte desconforto em Israel, principal aliado norte-americano na região.

Outros especialistas, porém, enxergam ganhos para Washington. O professor de geopolítica João Alfredo Niegrei, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), destaca que os Estados Unidos conseguiram reduzir o risco de uma escalada militar de grandes proporções e evitar possíveis impactos severos no mercado global de energia.

A reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela significativa do petróleo comercializado mundialmente, é vista como um dos principais resultados positivos para a economia internacional. Além disso, o retorno do Irã à mesa de negociações nucleares é apontado como um avanço diplomático relevante.

Apesar disso, Niegrei ressalta que o resultado ficou distante das promessas feitas por Trump durante o conflito, quando o presidente norte-americano afirmava buscar o encerramento definitivo do programa nuclear iraniano.

Outro ponto de divergência está justamente no tratamento dado à questão nuclear. O Irã reafirmou que não pretende desenvolver armas atômicas, posição que já vinha sendo defendida oficialmente pelo país, mas não aceitou qualquer desmantelamento imediato de sua estrutura nuclear. O tema foi transferido para futuras negociações, o que tem gerado críticas de setores conservadores dos Estados Unidos e de aliados de Israel.

A reação do governo israelense é acompanhada com atenção por observadores internacionais. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já demonstrou reservas em relação ao acordo, e grupos pró-Israel nos Estados Unidos devem intensificar a pressão política contra o entendimento firmado entre Washington e Teerã.

O memorando assinado eletronicamente estabelece um prazo de 60 dias para a construção de um acordo de paz definitivo. Até lá, diplomatas dos dois países continuarão negociando os termos finais que poderão encerrar um dos conflitos mais delicados da geopolítica mundial nas últimas décadas.

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