UFJF e UFMG se retratam por uso de corpos de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena em aulas de anatomia

Pelo menos duas instituições públicas de ensino superior se retrataram pelo uso inadequado de cadáveres de pessoas confinadas em hospitais psiquiátricos em cursos de saúde. A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) divulgou nota nesta segunda-feira (18), seguindo a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que se manifestou no mês passado.
A UFJF reconheceu sua conivência em “um dos momentos mais sensíveis da história da saúde pública do país”, destacando que a segregação social e as práticas punitivas submetiam indivíduos que não se enquadravam no padrão a condições mínimas de sobrevivência. A instituição citou gênero, classe social, orientação sexual e raça como critérios utilizados para hierarquizar as pessoas.
A universidade lembrou do Hospital Colônia de Barbacena, responsável pela marginalização de pacientes, com estimativa de mais de 60 mil mortos ao longo do século XX, muitos classificados como indigentes. Registros indicam que 1.853 corpos foram comercializados para instituições de ensino de saúde, sendo que o Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFJF recebeu 169 deles entre 1962 e 1971 para aulas de anatomia.
Como forma de reparação simbólica, a UFJF comprometeu-se a implementar ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental, buscar apoio para a criação de um memorial e realizar pesquisas documentais sobre a conexão com o Hospital de Barbacena. Desde 2010, a instituição recebe apenas corpos doados voluntariamente, respeitando normas legais e a dignidade humana.
De forma semelhante, a UFMG reconheceu publicamente sua responsabilidade pelo uso de corpos do Hospital Colônia de Barbacena, adotando ações de memória em parceria com grupos da luta antimanicomial, restauração de livros históricos de registro de cadáveres e inclusão do tema em disciplinas de anatomia da Faculdade de Medicina. Desde 1999, a UFMG mantém um programa de doação voluntária de corpos, alinhado a padrões internacionais.
O caso evidencia a importância de resgatar a história da psiquiatria no Brasil e promover uma cultura de respeito aos direitos humanos. Obras como “O Alienista”, de Machado de Assis, e iniciativas da psiquiatra Nise da Silveira, que utilizou arte e cuidados humanizados no tratamento de transtornos mentais, contribuem para a reflexão sobre práticas passadas e atuais.









