A fé não é o problema. O problema é quem lucra com ela.

por Osmar Wang

Milhões de brasileiros acordam cedo todos os dias para enfrentar ônibus lotados, salários baixos, filas na saúde pública, aluguel caro e a insegurança de um país profundamente desigual. Muitos encontram na fé um refúgio, uma esperança e uma força para continuar lutando. E não há absolutamente nada de errado nisso.

O problema começa quando a fé deixa de ser instrumento de esperança e passa a ser instrumento de manipulação.

Ao observar a recente Marcha para Jesus, chamou a atenção a quantidade de pedidos que pouco tinham a ver com espiritualidade. Não eram apenas orações por saúde, paz ou proteção da família. Havia pedidos por carros, dinheiro, prosperidade financeira, sucesso empresarial, PIX milagroso e toda sorte de bênçãos materiais.

Isso não aconteceu por acaso.

Durante décadas, uma parte do neopentecostalismo brasileiro construiu uma poderosa indústria da fé baseada na chamada “teologia da prosperidade”. Segundo essa lógica, riqueza seria sinal da bênção divina e pobreza poderia ser interpretada como falta de fé, de obediência ou de merecimento.

O resultado é perverso.

O trabalhador que ganha pouco não é levado a questionar a estrutura econômica que produz desigualdade. É levado a acreditar que precisa orar mais.

A mãe que não consegue atendimento médico não é estimulada a cobrar políticas públicas. É incentivada a fazer uma corrente de fé.

O desempregado não é convidado a refletir sobre a economia ou sobre os direitos trabalhistas. É convencido de que um milagre resolverá sua situação.

Enquanto isso, lideranças religiosas acumulam patrimônio, emissoras de televisão, bancos, universidades, gravadoras, partidos políticos e influência sobre milhões de pessoas.

Não é coincidência.

A fé popular se transformou em um dos maiores ativos políticos do Brasil contemporâneo.
Por isso tantos políticos disputam espaço em eventos religiosos. Não é por devoção. É por voto.
Não é por espiritualidade. É por poder, pois o altar virou palanque e o púlpito virou plataforma eleitoral.

E a Bíblia, muitas vezes, passou a ser usada como instrumento de convencimento político.

É importante dizer: a crítica não é ao povo que acredita. A crítica não é à senhora que pede saúde para o neto. Não é ao trabalhador que busca conforto espiritual diante das dificuldades da vida.

A crítica é a quem transforma essa necessidade humana em negócio.

A quem utiliza a fé para enriquecer.
A quem usa a religião para defender privilégios.
A quem convence trabalhadores a votarem contra seus próprios interesses.
A quem faz da esperança um produto e da crença um mercado.

Jesus expulsou os vendilhões do templo. Hoje, em muitos casos, os vendilhões são os donos do templo.

E talvez essa seja uma das maiores contradições do Brasil contemporâneo: um país onde milhões seguem buscando a mensagem de solidariedade, justiça e amor ao próximo ensinada por Cristo, enquanto parte daqueles que falam em seu nome utiliza essa mesma fé para acumular riqueza, poder político e influência.

A fé não é o problema.

O problema é quem aprendeu a lucrar com ela.

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