Quando a mentira vira manchete

Por Osmar Wang

Existe um fenômeno preocupante acontecendo no jornalismo político brasileiro. Não se trata apenas da disseminação de mentiras por figuras públicas. O mais grave é quando parte da imprensa abandona seu papel de fiscal dos fatos para se transformar em caixa de ressonância dessas mentiras.

Nos últimos meses, tornou-se comum encontrar manchetes reproduzindo declarações de Flávio Bolsonaro contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sem qualquer contextualização séria ou checagem imediata. O roteiro é sempre o mesmo: uma acusação grave, uma insinuação irresponsável ou uma ofensa política lançada ao público sem provas, seguida de ampla repercussão nos principais veículos de comunicação.

Quando Flávio Bolsonaro afirma que Lula “parece chefe do PCC”, não estamos diante de uma crítica política. Estamos diante de uma acusação gravíssima sem qualquer evidência. É mentira. E mentira não deveria ser tratada como opinião legítima em uma democracia.

A prática se tornou um método político da extrema direita brasileira. Acusa-se primeiro, repercute-se depois e, quando a falsidade fica evidente, o estrago já foi feito. O objetivo nunca foi apresentar provas. O objetivo é contaminar o debate público, gerar manchetes, alimentar redes sociais e produzir desgaste político.

Trata-se de uma postura mentirosa, covarde e canalha.

Mentirosa porque lança acusações sem qualquer compromisso com os fatos.
Covarde porque tenta destruir reputações sem assumir o ônus de provar aquilo que afirma.
Canalha porque aposta deliberadamente na desinformação como instrumento de disputa eleitoral.

O mais espantoso é observar parte da imprensa colaborando com esse processo. Manchetes reproduzem declarações absurdas como se fossem fatos relevantes apenas porque foram pronunciadas por um senador da República. Não basta informar que alguém disse algo. O dever do jornalismo é informar se aquilo é verdade.

A falsa neutralidade diante da mentira não é imparcialidade. É omissão.

Foi exatamente esse comportamento que ajudou a normalizar o bolsonarismo durante anos. Mentiras sobre urnas eletrônicas, ataques ao Supremo Tribunal Federal, teorias conspiratórias sobre vacinas, falsas denúncias de fraude eleitoral e inúmeras outras invenções receberam espaço privilegiado no debate público antes de serem confrontadas pela realidade.

Agora, em pleno processo eleitoral, o mesmo método reaparece. Enquanto o país discute geração de empregos, crescimento econômico, combate ao desmatamento, redução da pobreza e defesa da soberania nacional, setores da oposição tentam substituir o debate de ideias pela fábrica permanente de escândalos imaginários.

A democracia precisa de oposição. Precisa de críticas. Precisa de divergências.
O que ela não precisa é da normalização da mentira como ferramenta política.

E a imprensa que se pretende séria não pode agir como simples alto-falante de acusações sem provas. Quando uma mentira vira manchete sem contestação, o jornalismo deixa de cumprir sua função social e passa a servir de veículo para a desinformação.

A verdade não é uma questão de opinião. E mentirosos contumazes não podem continuar recebendo tratamento privilegiado apenas porque ocupam cargos públicos ou carregam sobrenomes conhecidos.

A democracia brasileira já pagou caro demais pela tolerância com a mentira.

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