Relatórios apontam irregularidades em ONG ligada à cinebiografia de Bolsonaro

Relatórios internos da Prefeitura de São Paulo revelam que técnicos municipais tentaram diversas vezes localizar representantes da ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade presidida por Karina Ferreira da Gama, empresária ligada à produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL), intitulada Dark Horse.
Mesmo diante de alertas, dificuldades de contato e suspeitas apontadas nos documentos oficiais, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) manteve contratos milionários e continuou realizando pagamentos à entidade.
Karina Ferreira também é dona da Go Up Entertainment, produtora do filme sobre Bolsonaro financiado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Além disso, empresas ligadas à empresária receberam recursos públicos oriundos de emendas parlamentares de políticos alinhados ao bolsonarismo para projetos culturais, inclusão digital, eventos esportivos e produções audiovisuais.
O principal contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil ultrapassa R$ 100 milhões e previa a instalação de 5 mil pontos de Wi-Fi em comunidades de baixa renda da capital paulista.
Os problemas começaram a aparecer durante a fiscalização de outro projeto da entidade, chamado “Colorindo Sonhos: da Superação ao Sucesso no Empreendedorismo de Maquiagem”, financiado com R$ 300 mil através de emenda parlamentar do vereador André Santos (Republicanos), integrante da base de apoio do prefeito Ricardo Nunes.
Em setembro de 2024, funcionários da prefeitura passaram a cobrar informações sobre o andamento do projeto e solicitaram visitas técnicas para monitoramento das atividades previstas.
Após sucessivas tentativas frustradas de contato, uma servidora pública foi até o endereço informado como sede da ONG, na Avenida Paulista, mas constatou que o instituto não funcionava no local.
“No local indicado como sede de funcionamento da OSC não havia nenhuma pessoa do referido instituto”, registra um dos relatórios produzidos pela equipe técnica da prefeitura.
Os documentos também apontam respostas evasivas por parte da presidente da entidade, ausência de prestação adequada de informações e dificuldades constantes de comunicação.
Em maio de 2025, uma nova vistoria voltou a encontrar o endereço vazio. Segundo o relatório, funcionários do prédio afirmaram que nunca existiu qualquer sede do Instituto Conhecer Brasil naquele local.
“Não conseguimos localizar a OSC há mais de 3 meses”, aponta o documento.
Apesar disso, a Prefeitura de São Paulo manteve os contratos ativos. Em resposta, a administração municipal afirmou que os problemas teriam sido resolvidos posteriormente e alegou que a divergência entre endereço fiscal e local de execução das atividades não caracteriza irregularidade.
O caso mais grave envolve justamente o contrato do Wi-Fi social, atualmente investigado pelo Ministério Público de São Paulo e também pela Polícia Civil.
O projeto previa a instalação de 5 mil pontos de internet até 2025, mas até agora apenas cerca de 3,2 mil teriam sido entregues.
O Ministério Público investiga possíveis irregularidades no chamamento público, já que a ONG venceu o processo sem concorrência. O Tribunal de Contas do Município chegou a apontar mais de 20 irregularidades no edital antes da liberação do contrato.
A Promotoria também apura:
• falta de justificativa técnica e econômica;
• aditamentos contratuais feitos em sequência e às pressas;
• pagamentos antecipados;
• e prestação de contas com notas fiscais canceladas ou emitidas para a própria entidade.
Entre julho e agosto de 2024, o Instituto Conhecer Brasil recebeu cerca de R$ 11 milhões da prefeitura pelo fornecimento de internet. Na época, apenas seis pontos estavam efetivamente funcionando.
Outro contrato sob questionamento envolve o patrocínio da feira de tecnologia e games Tech Friday, realizada na rua Santa Efigênia. A gestão Ricardo Nunes firmou um contrato de R$ 2,5 milhões com a ONG apenas um dia antes do início do evento.
Na proposta apresentada, a entidade previa público de 60 mil pessoas. Posteriormente, a própria prefeitura informou participação de pouco mais de 3 mil visitantes.
Enquanto áreas essenciais sofrem com falta de investimentos e precarização dos serviços públicos, milhões continuam sendo destinados a contratos cercados de suspeitas, vínculos políticos e denúncias de irregularidades envolvendo grupos ligados ao bolsonarismo paulista.









