Bolsonaros apelam aos EUA e transformam o Brasil em palco de oportunismo político

Osmar Wang

A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas escancarou mais uma vez uma prática que virou marca registrada do bolsonarismo: usar problemas reais do Brasil para fazer política rasteira e entregar a soberania nacional em troca de dividendos eleitorais.

Ninguém em sã consciência defende facções criminosas. PCC e Comando Vermelho são organizações violentas que espalham terror, tráfico, assassinatos e controle armado de territórios. O combate a essas estruturas criminosas é obrigação do Estado brasileiro.

Mas uma coisa é enfrentar o crime organizado com inteligência, investigação, cooperação internacional e fortalecimento das instituições nacionais. Outra completamente diferente é correr para Washington pedindo que uma potência estrangeira enquadre problemas internos do Brasil dentro de sua própria lógica geopolítica.

Foi exatamente isso que Flávio Bolsonaro fez.

Em vez de defender o fortalecimento da Polícia Federal, da inteligência financeira, da cooperação entre países e dos órgãos brasileiros de segurança pública, preferiu buscar apoio político de Donald Trump para vender a imagem de “salvador da pátria” em plena pré-campanha presidencial.

O mais revoltante é o grau de subserviência embutido nessa postura.

O bolsonarismo passa anos berrando sobre patriotismo, soberania nacional e defesa do Brasil, mas basta surgir uma oportunidade eleitoral para correr até os Estados Unidos pedindo intervenção política, pressão diplomática e enquadramento internacional de questões que pertencem ao Estado brasileiro.

É um nacionalismo de fantasia.

Na prática, comportam-se como representantes locais dos interesses da extrema direita norte-americana.

Especialistas já alertaram que a classificação de facções como organizações terroristas pode abrir espaço para sanções financeiras, disputas jurídicas internacionais e pressões externas sobre empresas, bancos e operações ligadas ao Brasil.

Ou seja: os mesmos que vivem falando em defender o país não hesitam em criar situações capazes de aumentar a interferência estrangeira sobre assuntos internos brasileiros.

E tudo isso acontece num momento extremamente conveniente para Flávio Bolsonaro.

A movimentação surge justamente quando o senador enfrenta desgaste provocado pelas revelações envolvendo Daniel Vorcaro, Banco Master e o financiamento milionário do filme “Dark Horse”. De repente, o debate deixa de ser os escândalos que cercam o clã Bolsonaro e passa a girar em torno de uma agenda montada em Washington.

A estratégia é transparente.

Criar um espetáculo político internacional para tentar reposicionar a imagem do bolsonarismo como força de combate ao crime enquanto se esconde das próprias contradições.

O problema é que combater o crime organizado não pode servir de desculpa para transformar o Brasil em quintal de interesses estrangeiros.

Patriotismo não é tirar foto na Casa Branca.
Patriotismo não é pedir tutela internacional sobre problemas nacionais.
Patriotismo não é agir como despachante político de Donald Trump.

Patriotismo é fortalecer as instituições brasileiras, investir em inteligência, combater a lavagem de dinheiro, enfrentar o financiamento do crime e proteger a soberania do país.

O resto é oportunismo… e dos mais canalhas.

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