Bolívia enfrenta crise com bloqueios e alta dos preços

A Bolívia vive uma das mais graves crises sociais e econômicas dos últimos anos. Há mais de um mês, bloqueios de estradas promovidos por organizações ligadas ao ex-presidente Evo Morales vêm provocando desabastecimento de alimentos, falta de combustível, escassez de medicamentos e dificuldades no funcionamento da rede pública de saúde.

Os protestos, liderados pela Central Operária Boliviana e pela Federação Camponesa Tupac Katari, já somam 35 dias e atingem sete dos nove departamentos do país.

Os manifestantes exigem a renúncia do presidente Rodrigo Paz, enquanto a população enfrenta as consequências diretas do impasse político.

Em cidades como El Alto e La Paz, o cotidiano da população foi profundamente alterado. Com o transporte público comprometido e a circulação de mercadorias reduzida, trabalhadores percorrem longas distâncias para manter suas atividades e garantir alguma renda.

É o caso da comerciante indígena aimará Graciela Cancari, que caminha diariamente cerca de duas horas para chegar ao mercado onde vende frutas. Além dos produtos, ela empurra um carrinho com sua filha, que possui deficiência e não pode ficar sozinha em casa.

Segundo a vendedora, a crise derrubou o poder de compra da população e provocou prejuízos aos pequenos comerciantes. Mercadorias deixam de ser vendidas, produtos estragam e famílias inteiras veem a renda diminuir enquanto os preços sobem rapidamente.

Os bloqueios já ultrapassam 90 pontos em rodovias estratégicas do país e dificultam o abastecimento dos centros urbanos. Como consequência, alimentos básicos registraram aumentos expressivos.

O preço do frango praticamente dobrou em algumas regiões. A carne bovina também disparou, enquanto legumes e verduras chegam a custar até seis vezes mais do que antes do início dos protestos.

Nos mercados populares de La Paz, consumidores relatam que o dinheiro já não é suficiente para comprar os produtos que faziam parte da alimentação diária. Muitas famílias passaram a reduzir refeições ou substituir alimentos por opções mais baratas.

A crise afeta especialmente idosos, trabalhadores informais e famílias de baixa renda. Em diversos bairros, moradores relatam dificuldades para adquirir carne, leite, ovos e vegetais.

O impacto também alcançou o sistema de saúde.

Hospitais públicos de La Paz entraram em estado crítico por falta de oxigênio medicinal, anestésicos e medicamentos cirúrgicos. Em alguns momentos, unidades de terapia intensiva estiveram próximas de interromper atendimentos devido ao risco de esgotamento dos estoques.

Autoridades sanitárias do departamento de La Paz declararam emergência para tentar agilizar recursos e garantir o funcionamento dos hospitais. Algumas cirurgias eletivas já foram suspensas e apenas casos urgentes continuam sendo atendidos.

A dificuldade de deslocamento também tem afetado ambulâncias e transferências médicas. Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde boliviano, ao menos cinco pessoas morreram enquanto tentavam chegar a hospitais especializados durante o período de bloqueios.

Outro reflexo da crise aparece nos postos de combustíveis. Em La Paz, filas com centenas de veículos se estendem por vários quarteirões. Motoristas passam horas, e em alguns casos dias, aguardando a chegada de gasolina e diesel.

Trabalhadores que dependem dos veículos para sobreviver relatam perdas significativas de renda. Muitos deixaram de trabalhar por falta de combustível ou porque passam grande parte do tempo nas filas dos postos.

Enquanto o impasse político continua sem solução, cresce a preocupação de organizações sociais, entidades de saúde e autoridades locais sobre o agravamento da insegurança alimentar e humanitária. A população, especialmente os setores mais pobres, segue pagando o preço mais alto de uma crise que mistura disputas políticas, bloqueios econômicos e dificuldades estruturais que já afetavam o país antes dos protestos.

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