Governo alerta para vulnerabilidade do Brasil em cenário de conflitos globais

O avanço das tensões internacionais e o recente cenário de instabilidade na América do Sul acenderam um alerta dentro do governo federal sobre a necessidade de o Brasil fortalecer sua capacidade de defesa e ampliar sua atuação estratégica no cenário global.
Durante a 2ª Conferência Nacional de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil, realizada na Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Bernardo do Campo, o assessor-chefe adjunto da Assessoria Especial da Presidência da República, Audo Faleiro, afirmou que a área de defesa deverá ocupar posição central na política externa brasileira nos próximos anos.
Segundo ele, a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e o aumento dos conflitos internacionais reforçaram a percepção de vulnerabilidade na região e evidenciaram a necessidade de o Brasil discutir com mais seriedade sua capacidade de proteção territorial e seus interesses estratégicos.
Apesar de afirmar que não enxerga ameaças imediatas contra o território brasileiro, as reservas de petróleo ou o programa nuclear nacional, Faleiro destacou que o país não pode continuar ignorando o debate sobre defesa.
Para o assessor, parte da sociedade ainda acredita que o Brasil não precisa investir no setor por ser um país historicamente pacífico. Outra parcela considera inútil competir com grandes potências militares. No entanto, ele argumenta que conflitos recentes demonstram que a capacidade de dissuasão continua sendo fundamental para garantir soberania e segurança nacional.
Além da defesa, o governo identifica outros desafios estratégicos para os próximos anos. Entre eles estão a exploração de minerais críticos e terras raras, recursos cada vez mais disputados pela indústria global de tecnologia e pela transição energética. O Brasil possui uma das maiores reservas do planeta, mas ainda carece de uma política nacional robusta para transformar essa riqueza em desenvolvimento econômico e tecnológico.
Outro ponto considerado prioritário é a soberania digital. Segundo Faleiro, o país perdeu espaço em debates decisivos sobre tecnologia, inteligência artificial e infraestrutura digital, e agora precisará acelerar investimentos para recuperar terreno diante das grandes potências globais.
O combate ao crime organizado transnacional também aparece entre as preocupações do governo. O assessor defendeu uma atuação mais ativa do Brasil na construção de políticas regionais de enfrentamento às organizações criminosas, evitando que o tema seja utilizado apenas como instrumento de disputa política.
Na avaliação do governo, o país também precisará reconstruir pontes de integração com a América Latina e o Caribe. Faleiro apontou que divergências políticas entre governos da região e a crise diplomática envolvendo a Venezuela dificultaram o fortalecimento de organismos como a Unasul e a Celac, que hoje enfrentam dificuldades para avançar em agendas comuns.
A retomada das relações com os países africanos foi outro tema destacado. Segundo ele, o Brasil ainda mantém prestígio histórico no continente, especialmente por iniciativas desenvolvidas durante os primeiros governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No entanto, após anos de afastamento diplomático, o espaço passou a ser ocupado por outros atores internacionais com maior presença econômica e política.
Faleiro também fez críticas à ampliação do Brics, bloco que atualmente reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Indonésia, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã. Na avaliação do assessor, a entrada de novos membros acabou dificultando a construção de consensos internos e reduziu a capacidade de articulação política do grupo diante de conflitos internacionais.
Para o representante da Presidência, o cenário internacional exige que o Brasil fortaleça sua capacidade de defesa, amplie sua autonomia tecnológica e assuma papel mais ativo na construção de alianças estratégicas capazes de proteger seus interesses em um mundo cada vez mais marcado por disputas geopolíticas e econômicas.










