Suzano e conveniente a política do conluio: quando ninguém se opõe a nada

A política suzanense vive uma profunda crise de convicções, de ideias e, sobretudo, de coerência. As divergências de ontem evaporam de uma hora para outra. Críticas antes inflamadas são engavetadas sem qualquer constrangimento. Antigos adversários se abraçam em nome do “progresso do município”, como se anos de embates, denúncias e discordâncias fossem apenas detalhes descartáveis. Tudo se torna negociável, tudo se relativiza, tudo é reescrito, desde que se permaneça próximo dos corredores do poder.

O debate público praticamente desapareceu. Em seu lugar, consolidou-se uma política de fotografias, anúncios de apoio, vídeos institucionais e discursos genéricos que poderiam ser proferidos por qualquer grupo político. Já não se discute seriamente qual cidade queremos construir. Fala-se pouco sobre desigualdade, mobilidade urbana, planejamento, meio ambiente, desenvolvimento econômico, participação popular ou ocupação do território. O que resta é uma silenciosa disputa por espaços de influência, sobrevivência política e manutenção de capital eleitoral.

Talvez ainda mais preocupante seja a quase completa ausência de uma oposição organizada. As direções e militâncias dos partidos que se reivindicam de esquerda, e que historicamente deveriam exercer o papel de enfrentamento político e ideológico ao modelo de gestão vigente, parecem anestesiadas. Alguns setores se aproximaram excessivamente da máquina pública e perderam a capacidade de formular críticas consequentes. Outros se enclausuraram em intermináveis debates internos, presos em grupos de WhatsApp, onde a indignação se limita a mensagens, áudios, notas de repúdio e discussões circulares entre os mesmos de sempre.

Enquanto isso, a população permanece completamente à margem desse processo. Não existe trabalho de base consistente. Não existe disputa de narrativa nos bairros. Não existe mobilização popular permanente, formação política ou esforço real de conscientização sobre os rumos da cidade. A crítica fica confinada em bolhas digitais e a militância se converte em um exercício de catarse coletiva que produz alívio momentâneo, mas nenhuma consequência prática.

Uma cidade sem oposição qualificada e sem debate público vigoroso corre o sério risco de mergulhar em um perigoso consenso artificial, onde todos parecem concordar com tudo e ninguém se dispõe a questionar nada. E quando a política chega a esse estágio, a democracia local deixa de ser um espaço de disputa de projetos e passa a funcionar como um ambiente de acomodação de interesses. A fiscalização enfraquece, o contraditório desaparece e a população perde a capacidade de enxergar que existem alternativas possíveis para o futuro do município.

No fim, Suzano torna-se uma cidade onde a política já não é instrumento de transformação social, mas apenas um mecanismo de administração de consensos, distribuição de espaços e perpetuação de arranjos de poder. E o cidadão comum, que deveria ser o protagonista desse processo, permanece relegado ao papel de mero espectador de um jogo cujas regras são decididas sem a sua participação e, muitas vezes, sem sequer o seu conhecimento.

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