Alto Tietê: muito rico para ser esquecido, muito importante para continuar abandonado

por Derli Dourado

O Alto Tietê vive uma contradição que já dura décadas. Somos uma das regiões mais ricas e produtivas do Estado de São Paulo, mas continuamos recebendo investimentos incompatíveis com nossa importância econômica e social. Produzimos riqueza, geramos empregos, arrecadamos impostos e ajudamos a movimentar a economia paulista, mas quando o assunto é saúde, educação, mobilidade e infraestrutura, permanecemos em segundo plano.

Com mais de três milhões de habitantes e um dos maiores parques industriais do estado, o Alto Tietê deveria ser tratado como prioridade estratégica. No entanto, a realidade mostra exatamente o contrário. A região sofre com a falta de hospitais, a escassez de leitos, a demora no atendimento especializado e a ausência de investimentos estruturantes capazes de acompanhar seu crescimento populacional.

Na educação superior, a situação é ainda mais reveladora do descaso histórico. Enquanto outras regiões contam com universidades estaduais e federais consolidadas, o Alto Tietê continua sem uma unidade da UNESP e sem uma universidade federal. A recente inauguração de uma Fatec em Suzano é positiva, mas está longe de compensar décadas de abandono. Não se pode considerar normal que uma região tão populosa e economicamente relevante tenha oportunidades tão limitadas para sua juventude.

A infraestrutura regional também reflete essa falta de prioridade. A Rodovia Mogi-Bertioga, principal ligação entre o Alto Tietê e o litoral, continua sendo uma estrada insuficiente para o volume de veículos que recebe. A duplicação da via é discutida há anos, mas permanece apenas no campo das promessas. Enquanto isso, motoristas enfrentam riscos constantes, quedas de barreiras e trânsito intenso. Os prefeitos da cidades da região fecham os olhos para essa situação.

O problema, porém, não está apenas na ausência de investimentos. Está também na ausência de pressão política. O Alto Tietê possui dezenas de prefeitos, vereadores, deputados e lideranças regionais, mas a região continua sem força suficiente para impor suas demandas na agenda do governo estadual. Falta articulação, falta unidade e, principalmente, falta disposição para confrontar interesses que historicamente concentram investimentos em outras regiões do estado. Não há uma visão de conjunto.

O Condemat, criado para representar os municípios do Alto Tietê de forma integrada, precisa assumir um papel mais ativo e combativo. Não basta reunir prefeitos para fotografias institucionais e eventos protocolares. É necessário liderar uma verdadeira mobilização regional em defesa dos interesses da população. Quem representa mais de três milhões de pessoas tem o dever de exigir respostas concretas. Passou da hora dos chefes dos executivos passarem a ter uma visão de conjunto e regionalizada.

A situação da educação básica também merece atenção. Apesar de São Paulo possuir o maior orçamento estadual do país, muitos indicadores educacionais continuam abaixo
do esperado. Em alguns casos, municípios e estados com muito menos recursos apresentam resultados melhores. Isso demonstra que o problema não é apenas financeiro, mas também de gestão e prioridade política.
O Alto Tietê não precisa de favores. Precisa de justiça. Precisa receber investimentos compatíveis com aquilo que entrega ao desenvolvimento do estado. Não é aceitável que uma região responsável por uma parcela significativa da riqueza paulista continue esperando por hospitais, universidades, estradas modernas e serviços públicos de qualidade

Em 2026, os eleitores terão a oportunidade de escolher deputados estaduais, deputados federais, senadores, governador e presidente da República. Mais do que nunca, será necessário avaliar quem realmente está comprometido com os problemas da região. O Alto Tietê não pode continuar elegendo representantes que aparecem apenas durante as campanhas eleitorais e desaparecem quando chega a hora de defender investimentos para seus municípios.

A riqueza do Alto Tietê não pode continuar financiando o desenvolvimento de outras regiões enquanto suas próprias necessidades são ignoradas. A população precisa transformar sua força econômica em força política. Afinal, uma região que ajuda a sustentar São Paulo não pode continuar sendo tratada como periferia das decisões do estado.

O Alto Tietê já demonstrou sua capacidade de produzir riqueza.
Agora precisa exigir respeito, investimentos e representação política à altura de sua importância.

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