Arthur Verocai: o maestro brasileiro cultuado pelo jazz mundial que já foi chamado de “louco” pela indústria

Considerado um dos nomes mais influentes e cultuados da música brasileira, o maestro, compositor e arranjador Arthur Verocai atravessa gerações mantendo uma trajetória marcada pela ousadia musical, pela sofisticação harmônica e pela capacidade de dialogar com diferentes universos sonoros — da bossa nova ao jazz, da MPB ao hip-hop internacional.
Aos 80 anos, Verocai segue sendo referência para artistas do mundo inteiro e continua despertando fascínio especialmente entre músicos ligados ao jazz experimental, ao rap e à música instrumental contemporânea.
Em entrevista recente, o maestro relembrou momentos marcantes da carreira, falou sobre o histórico disco lançado em 1972, comentou sua influência sobre artistas internacionais e revelou detalhes de novos projetos que estão em andamento.
Arthur Verocai cresceu cercado pela música. Ainda criança, teve os primeiros contatos musicais ouvindo baiões na Rádio Nacional e discos de artistas como Luiz Bonfá e Baden Powell, presença constante em casa.
Já adolescente, mergulhou profundamente no universo do violão e da bossa nova. Morador de Copacabana, no Rio de Janeiro, teve aulas com Roberto Menescal, um dos pioneiros do movimento.
“Eu era fanático por violão e por bossa nova. Se tivesse alguém tocando alguma coisa na rua, eu ia assistir”, relembrou.
Além da música popular, Verocai também construiu sólida formação erudita. Estudou harmonia, contraponto e orquestração, desenvolvendo técnicas inspiradas em compositores clássicos como Ravel e Bach.
Ainda no início da carreira, passou a trabalhar como arranjador e rapidamente chamou atenção da indústria musical.
Um de seus primeiros grandes trabalhos foi ao lado de Jorge Ben Jor, no disco “Negro é Lindo”, lançado em 1971.
“Era um talento nato. Fantástico”, definiu o maestro ao comentar a parceria.
Mas foi em 1972 que Arthur Verocai gravou o álbum que mudaria sua história — mesmo sem grande reconhecimento imediato no Brasil.
O disco homônimo “Arthur Verocai” acabou se tornando, décadas depois, uma verdadeira obra cultuada internacionalmente.
Na época do lançamento, porém, o trabalho causou estranhamento dentro das gravadoras.
Misturando orquestrações sofisticadas, jazz experimental, harmonias ousadas e estruturas pouco convencionais para os padrões comerciais dos anos 1970, o álbum acabou sendo visto por muitos executivos da indústria como “difícil demais”.
Segundo o próprio Verocai, chegou a circular entre profissionais da época a ideia de que ele teria “ficado maluco”.
O maestro, no entanto, nunca demonstrou arrependimento pela ousadia artística.
“Eu queria colocar naquele disco tudo aquilo que eu sentia musicalmente”, afirmou.
O álbum foi gravado com uma verdadeira seleção de músicos brasileiros e uma pequena orquestra composta por violinos, violas, cellos, trompetes, flugelhorns, saxofones, trombone e percussão.
Entre os músicos envolvidos estavam nomes importantes como Hélio Delmiro, Robertinho Silva, Pascoal Meirelles e Maciel Maluco.
Verocai relembrou inclusive episódios curiosos das gravações, como o solo improvisado do trombonista Maciel, que teria tomado algumas doses de bebida antes de entrar no estúdio e acabou realizando uma performance considerada histórica pelo maestro.
Apesar da recepção fria da indústria fonográfica brasileira na época, o disco começou a ganhar status cult internacional no início dos anos 2000, quando foi relançado em vinil nos Estados Unidos pela gravadora Ubiquity Records.
A partir dali, produtores de hip-hop, DJs e beatmakers passaram a samplear trechos das músicas de Verocai em produções internacionais.
Faixas como “Na Boca do Sol” viraram referência dentro da cena hip-hop norte-americana.
Artistas como MF Doom, Madlib, Tyler, The Creator e Ludacris passaram a citar Verocai como influência direta.
O rapper Ludacris chegou a utilizar trechos da obra do brasileiro em uma faixa lançada em 2008, ampliando ainda mais sua projeção internacional.
O maestro também construiu parcerias com artistas contemporâneos ligados ao jazz alternativo e à música experimental.
Entre eles está a banda australiana Hiatus Kaiyote, admirada por nomes como Beyoncé.
Verocai revelou que o encontro em estúdio com o grupo foi marcado por forte emoção.
Segundo ele, após as gravações, todos terminaram abraçados e chorando.
Mesmo reconhecido mundialmente, Arthur Verocai mantém hábitos simples e um perfil discreto.
Na entrevista, confessou que praticamente não acompanha a música pop atual.
Quando quer ouvir música, prefere recorrer a artistas que considera fundamentais em sua formação, como Villa-Lobos, Miles Davis e Wes Montgomery.
Ainda assim, segue extremamente respeitado pelas novas gerações.
Em tom bem-humorado, comentou sobre a relação com a banda canadense BadBadNotGood:
“Eu sou o ídolo deles.”
Agora, o maestro prepara dois novos discos.
Um deles será lançado pela gravadora britânica Far Out Recordings, especializada em música brasileira. O outro será um trabalho mais autoral, produzido por seu próprio selo.
Mesmo após mais de cinco décadas de carreira, Arthur Verocai segue sendo um dos exemplos mais raros da música brasileira: um artista que foi incompreendido pelo mercado em seu tempo, mas que acabou transformado em referência mundial justamente pela coragem de nunca limitar sua criatividade.









