Crise no agro eleva inadimplência e pressiona crédito rural no Brasil

O agronegócio brasileiro enfrenta um dos momentos mais desafiadores dos últimos anos. A combinação de mudanças climáticas, custos financeiros elevados e instabilidade econômica tem comprometido a rentabilidade de milhares de produtores rurais, aumentando a necessidade de renegociação de dívidas e elevando os índices de inadimplência no setor.
Especialistas alertam que o refinanciamento das dívidas pode oferecer alívio temporário aos produtores, mas não resolve os problemas estruturais que afetam a atividade. A recuperação financeira das propriedades rurais dependerá de medidas mais amplas, incluindo melhor gestão de caixa, planejamento financeiro e estratégias eficientes de mitigação de riscos.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) avalia que a próxima safra deverá ocorrer em um ambiente de maior incerteza. Em documento encaminhado ao Ministério da Agricultura, a entidade destacou que fatores como juros elevados, fragilidade fiscal, instabilidade internacional e eventos climáticos extremos tornam a produção agropecuária mais arriscada e menos previsível.
A preocupação vai além das porteiras das fazendas. Segundo a CNA, as dificuldades enfrentadas pelos produtores podem impactar diretamente o abastecimento e contribuir para a pressão sobre os preços dos alimentos. Em maio, a inflação dos alimentos atingiu 1,33%, percentual superior ao índice geral da inflação oficial do país, que ficou em 0,58%.
Os reflexos da crise também já aparecem no sistema financeiro. Principal agente de crédito rural do país, o Banco do Brasil concentra cerca de 60% dos financiamentos destinados ao agronegócio e possui uma carteira agrícola superior a R$ 406 bilhões.
Com o agravamento das dificuldades enfrentadas pelos produtores, a taxa de inadimplência das operações do agronegócio ultrapassou a média geral da instituição. O percentual de clientes do setor com parcelas em atraso há mais de 90 dias chegou a 6% em 2025, enquanto a inadimplência total do banco ficou em 5,17%.
O avanço dos atrasos nos pagamentos preocupa especialistas e representantes do setor, que defendem a ampliação de mecanismos de apoio ao produtor rural, além de políticas voltadas à adaptação climática e à sustentabilidade financeira das atividades agropecuárias.
A avaliação é de que, sem medidas capazes de fortalecer a produção e garantir melhores condições de financiamento, os efeitos da crise poderão atingir toda a cadeia econômica ligada ao campo, com impactos sobre a oferta de alimentos, os preços ao consumidor e o crescimento do próprio agronegócio brasileiro.









