Estudo revela que peste negra já matava crianças há 5.500 anos na Sibéria

Uma descoberta científica está mudando o que se sabia sobre a origem e a evolução da peste, uma das doenças mais devastadoras da história da humanidade. Um estudo internacional publicado na revista Nature revelou evidências de que surtos da bactéria Yersinia pestis, causadora da peste negra, já atingiam populações humanas há cerca de 5.500 anos na Sibéria.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Dinamarca, Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e China, que analisaram restos mortais encontrados em cemitérios pré-históricos localizados às margens do rio Angara, próximo ao Lago Baikal, no sul da Sibéria.
Até então, acreditava-se que a peste tivesse se tornado uma ameaça significativa apenas após o surgimento de comunidades agrícolas mais densamente povoadas. No entanto, os novos dados mostram que grupos de caçadores-coletores altamente móveis já sofriam com epidemias letais milhares de anos antes.
Os pesquisadores estudaram o DNA de 46 indivíduos que viveram entre 5.500 e 5.300 anos atrás. Em 18 deles foi identificada a presença da bactéria Yersinia pestis, indicando a ocorrência de pelo menos dois surtos distintos na região.
A descoberta chama atenção porque essas populações não praticavam agricultura nem criavam animais de grande porte. Viviam da caça, da pesca e da coleta, utilizando ferramentas de pedra, cerâmica e arco e flecha. O único animal domesticado era o cão.
As análises revelaram cenas que ajudam a reconstruir o impacto humano da doença. Em uma das sepulturas, três meninas entre quatro e nove anos foram enterradas juntas. Pelo grau de parentesco identificado através do DNA, os cientistas acreditam que elas pertenciam à mesma família e morreram praticamente no mesmo período.
Em outro túmulo, foram encontrados os restos de uma tia e de seu sobrinho, ambos contaminados pela bactéria. Também foram identificados casos de irmãos enterrados juntos, sugerindo que a doença atingia grupos familiares inteiros.
Um dos aspectos mais intrigantes da pesquisa é que a maioria das vítimas encontradas eram crianças. Em alguns cemitérios, a faixa etária predominante entre os mortos ficava entre sete e onze anos de idade, enquanto praticamente não havia adultos jovens entre 20 e 35 anos sepultados nos mesmos locais.
Os cientistas acreditam que a bactéria tenha surgido inicialmente em roedores selvagens da região, especialmente na marmota-siberiana, animal ainda hoje associado à transmissão ocasional da peste em algumas áreas da Ásia.
Entretanto, o estudo identificou uma diferença fundamental entre a bactéria daquela época e a que provocaria a famosa peste negra medieval. A versão mais antiga da Yersinia pestis ainda não possuía uma mutação genética que permitia sua transmissão eficiente por pulgas.
Isso levou os pesquisadores a concluir que a disseminação da doença provavelmente ocorria por vias respiratórias, através de gotículas liberadas pela tosse ou pelo contato próximo entre pessoas infectadas, tornando o contágio muito mais direto.
A descoberta ajuda a explicar como a peste conseguiu se espalhar por vastas áreas da Eurásia ao longo dos milênios. Segundo os autores, os roedores selvagens podem ter desempenhado um papel decisivo como reservatórios naturais da bactéria muito antes do surgimento dos ratos urbanos que ficaram associados às grandes epidemias da Idade Média.
A pesquisa também reforça que doenças infecciosas capazes de provocar grandes tragédias humanas já afetavam sociedades pré-históricas, revelando que epidemias fazem parte da trajetória da humanidade há milhares de anos.
Os cientistas consideram o estudo um marco para compreender a evolução da peste e os mecanismos que transformaram uma infecção regional em uma das pandemias mais devastadoras da história.









