Pesquisa revela desafios invisíveis do envelhecimento no Brasil

Uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais escancarou uma realidade frequentemente ignorada pelo poder público: envelhecer no Brasil significa enfrentar medo, abandono, precariedade urbana e dificuldades de acesso ao cuidado.
Os dados fazem parte da terceira etapa do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (Elsi-Brasil), considerado um dos maiores levantamentos sobre envelhecimento já realizados no país.
Entre os números mais alarmantes está o fato de que 42,7% dos idosos que vivem em áreas urbanas têm medo de cair por causa das condições precárias de calçadas, ruas e vias públicas próximas de casa. Entre mulheres idosas, o índice ultrapassa 50%.
O estudo mostra como o abandono da infraestrutura urbana afeta diretamente a autonomia e a qualidade de vida da população mais velha, especialmente em cidades marcadas por desigualdade social, falta de acessibilidade e ausência de planejamento urbano inclusivo.
A pesquisa também revela que mais de 3,8 milhões de idosos vivem em regiões consideradas muito inseguras por causa da violência e da criminalidade.
Outro dado preocupante envolve a saúde física da população idosa.
Segundo o levantamento, cerca de 11 milhões de brasileiros com mais de 60 anos apresentam hipertensão arterial em níveis considerados perigosos, aumentando riscos de infarto, AVC, insuficiência renal e demência vascular.
A perda de autonomia também aparece como um dos principais desafios do envelhecimento no país.
Mais de 6,5 milhões de idosos já possuem dificuldades para realizar tarefas básicas do cotidiano, como tomar banho, comer, vestir roupas ou levantar da cama. Entre pessoas acima dos 80 anos, quase metade enfrenta algum grau de limitação funcional.
Mesmo diante desse cenário, o estudo revela um dado que expõe a fragilidade das políticas públicas de cuidado no Brasil: apenas 37,9% dos idosos com limitações recebem ajuda regular.
A situação é agravada pela ausência de apoio aos cuidadores. Apenas 5,8% das pessoas responsáveis pelos cuidados afirmaram ter recebido algum tipo de treinamento.
Os pesquisadores defendem a criação urgente de políticas estruturadas de cuidado de longa duração, apoio domiciliar e fortalecimento das redes públicas de assistência.
Ao mesmo tempo, o estudo reforça a importância do Sistema Único de Saúde e da Estratégia Saúde da Família como pilares fundamentais para garantir atendimento à população idosa.
Hoje, cerca de dois terços dos idosos brasileiros dependem exclusivamente do SUS para cuidados médicos.
Os dados também desmontam o discurso neoliberal que insiste em tratar envelhecimento apenas como questão individual.
A pesquisa mostra que envelhecer com dignidade depende diretamente de investimento público, cidades acessíveis, segurança, políticas sociais e fortalecimento da saúde pública — áreas historicamente afetadas por cortes e políticas de austeridade.









