Arquivos de ‘Sicário’ colocam investigação em alerta

Documentos da Polícia Federal encaminhados ao Supremo Tribunal Federal revelam um dos episódios mais delicados da Operação Compliance Zero. As investigações apontam que familiares de Felipe Mourão, conhecido pelo codinome “Sicário”, passaram a pressionar integrantes do círculo ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro após acessarem conteúdos digitais armazenados pelo operador antes de sua morte.

Segundo a Polícia Federal, Mourão ocupava posição estratégica dentro da estrutura investigada, atuando em atividades consideradas sensíveis, como monitoramento de alvos, obtenção de informações sigilosas e articulações operacionais. Por essa razão, celulares, contas digitais e arquivos armazenados em nuvem ligados ao operador passaram a ser considerados potenciais fontes de provas para os investigadores.

O ponto de virada ocorreu em março de 2026, quando familiares de Mourão teriam conseguido acessar sua conta de armazenamento digital. Em mensagens interceptadas pela PF, interlocutores ligados ao grupo investigado demonstraram preocupação após a informação de que a irmã de Felipe, Joana Machado de Moraes Mourão, havia passado horas examinando os arquivos.

De acordo com os relatórios, a percepção de que documentos, mensagens e registros comprometedores poderiam ter sido encontrados gerou inquietação entre pessoas próximas ao núcleo investigado. A partir daquele momento, Joana passou a aparecer com frequência nas comunicações analisadas pelos investigadores.

Nas semanas seguintes, o tom das conversas mudou. Mensagens reproduzidas nos relatórios mostram que Joana passou a cobrar pagamentos que considerava devidos à família após a morte do irmão. Em diversos momentos, ela relatou dificuldades financeiras e reclamou da falta de retorno por parte de Henrique Moura Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro.

A situação ganhou contornos mais graves no final de abril. Segundo a PF, Joana enviou mensagens afirmando possuir material capaz de atingir diretamente integrantes da família Vorcaro. Em uma das conversas, reproduzida nos relatórios oficiais, ela afirma que poderia comprometer uma delação em andamento e causar problemas judiciais para pessoas ligadas ao grupo investigado.

Os investigadores destacam que essas ameaças ocorreram justamente durante o período em que Daniel Vorcaro tentava negociar sua primeira proposta de colaboração premiada junto às autoridades. Embora a PF não estabeleça uma ligação formal entre os fatos, a coincidência temporal chamou a atenção dos responsáveis pela investigação.

Dois dias após as ameaças, um dos investigados viajou para Belo Horizonte e realizou reuniões com familiares de Felipe Mourão. Segundo a PF, os encontros envolveram discussões sobre contratos, ativos patrimoniais e possíveis formas de resolver as reivindicações apresentadas pela família do operador.

Mensagens analisadas pelos investigadores indicam que foram discutidas alternativas para transferência de direitos e ativos em nome da mãe de Mourão. Para a Polícia Federal, as conversas demonstram que havia tentativas concretas de acomodar os interesses financeiros apresentados pelos familiares.

Após os encontros, houve uma breve redução das tensões. Mensagens registradas pela investigação sugerem um momento de aparente entendimento entre as partes. No entanto, a trégua durou pouco.

Em maio, novas ameaças voltaram a aparecer nas comunicações monitoradas. Joana afirmou que pretendia divulgar informações sobre a família Vorcaro à imprensa e voltou a mencionar a existência de conteúdos considerados comprometedores.

Embora os relatórios não especifiquem quais arquivos teriam sido encontrados na conta digital de Felipe Mourão, a Polícia Federal ressalta que a simples possibilidade de acesso a esse material foi suficiente para gerar preocupação entre os investigados.

Os documentos também deixam claro que não há confirmação de que esses conteúdos tenham sido entregues formalmente às autoridades. Ainda assim, a PF considera que o acesso aos arquivos digitais de Mourão transformou seus familiares em potenciais fontes de informação relevantes para o avanço das apurações.

Na avaliação dos investigadores, a sequência de cobranças financeiras, reuniões presenciais, negociações patrimoniais e ameaças de divulgação pública revela um ambiente de forte tensão nos bastidores da investigação. O conjunto dos fatos passou a ser tratado como um dos capítulos mais sensíveis surgidos ao longo da Operação Compliance Zero.

Para a Polícia Federal, os episódios demonstram o receio existente dentro do grupo investigado de que informações armazenadas por um de seus operadores mais próximos pudessem vir a público ou chegar ao conhecimento das autoridades, ampliando ainda mais o alcance das investigações conduzidas no Supremo Tribunal Federal.

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