Tariflávio tenta se aproximar do Bolsa Família, mas histórico do bolsonarismo expõe contradições

A defesa do Bolsa Família feita pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) provocou uma enxurrada de críticas e reacendeu o debate sobre a coerência do discurso bolsonarista em relação aos programas sociais. O motivo é simples: depois de anos em que o grupo político liderado por Jair Bolsonaro atacou, desqualificou ou tentou associar o Bolsa Família à dependência do Estado, agora um de seus principais representantes aparece como defensor da iniciativa.
A reação do PT foi imediata. O partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou Flávio de tentar reconstruir sua imagem diante do eleitorado justamente no momento em que enfrenta desgaste nas pesquisas de intenção de voto para a disputa presidencial de 2026.
Para reforçar a crítica, a legenda divulgou um vídeo reunindo declarações antigas de Flávio Bolsonaro e do ex-presidente Jair Bolsonaro questionando o programa social. A peça termina com uma mensagem direta: “Eles podem até fingir, mas o povo conhece a verdade”.
A mudança de tom do senador chamou atenção porque, na segunda-feira, ele classificou o Bolsa Família como um “direito adquirido” dos brasileiros e afirmou que o benefício representa estabilidade para famílias que enfrentaram a fome e a pobreza.
Além disso, Flávio passou a defender uma ampliação da chamada regra de proteção, mecanismo que permite ao beneficiário continuar recebendo parte do auxílio após ingressar no mercado formal de trabalho. Pela norma atual, quem consegue emprego com carteira assinada pode permanecer recebendo 50% do benefício por até dois anos, desde que a renda familiar permaneça dentro dos limites estabelecidos pelo programa.
Segundo o senador, muitos trabalhadores evitam a formalização por medo de perder o benefício. Ele defendeu a criação de regras que garantam a permanência do auxílio por um período ainda maior, inclusive para quem abrir o próprio negócio.
A fala, no entanto, foi recebida com desconfiança por adversários políticos e por parte da opinião pública. Críticos apontam que o discurso atual contrasta com anos de ataques promovidos pelo bolsonarismo contra políticas de transferência de renda criadas e fortalecidas pelos governos petistas.
O contexto eleitoral ajuda a explicar a intensidade da reação. Pesquisa Genial/Quaest divulgada recentemente mostra Lula liderando a corrida presidencial com 39% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro aparece com 29%, abaixo dos 33% registrados no levantamento anterior. Em uma eventual disputa de segundo turno, Lula também aparece à frente, com 44% contra 38%.
Os números indicam perda de apoio do senador em segmentos importantes do eleitorado, especialmente entre mulheres, jovens, evangélicos e moradores do Sudeste.
Diante desse cenário, a tentativa de se apresentar como defensor do Bolsa Família é vista por adversários como uma estratégia para ampliar seu alcance junto às camadas populares. A questão que passa a dominar o debate político é se os eleitores acreditarão na nova versão do discurso ou se lembrarão das posições defendidas pelo bolsonarismo ao longo dos últimos anos.
Afinal, em política, mudar de opinião é legítimo. O que costuma gerar desconfiança é quando a mudança acontece exatamente no momento em que as pesquisas eleitorais começam a apontar dificuldades para quem busca conquistar votos.




