PF aponta grupo armado ligado aos Vorcaro e apreende arsenal com policial federal

Novos relatórios da Polícia Federal lançam luz sobre um dos aspectos mais graves da Operação Compliance Zero: a existência de uma estrutura armada que, segundo os investigadores, atuava em defesa de interesses ligados à família do banqueiro Daniel Vorcaro. Os documentos descrevem uma organização com características semelhantes às de grupos paramilitares, equipada com veículos blindados, armamento pesado, pessoal treinado e uma cadeia própria de comando.

De acordo com a investigação, o núcleo era liderado por Manoel Mendes Rodrigues e operava principalmente no Rio de Janeiro. A PF sustenta que a estrutura estava à disposição de integrantes do grupo empresarial vinculado aos Vorcaro, funcionando tanto para ações de proteção quanto para possíveis intimidações e retaliações.

As conclusões são baseadas em interceptações telefônicas, mensagens e documentos apreendidos durante as diversas fases da operação.

Um dos episódios destacados pelos investigadores ocorreu em fevereiro de 2026, durante a recepção de pessoas ligadas à família Vorcaro. Conversas obtidas pela PF mostram que os visitantes foram recebidos em meio a um forte aparato de segurança, com veículos blindados e homens armados com fuzis.

Segundo os diálogos reproduzidos no relatório, a intenção era transmitir proteção. O efeito, porém, teria sido exatamente o contrário.

Nas mensagens, Manoel Mendes admite que colocou “nosso pessoal” para cuidar da segurança dos convidados, afirmando que pediu para que todos permanecessem “o mais paisana possível”. Ainda assim, os visitantes teriam ficado assustados diante da presença ostensiva de armamento pesado.

Em um dos trechos citados pela investigação, André Martins Hodge, apontado como intermediário entre integrantes da família Vorcaro e Manoel, ironiza a situação ao comentar que os convidados foram recebidos por pessoas portando fuzis. Em outro momento, a cena é comparada à “Rússia de Putin”, numa referência ao ambiente fortemente militarizado.

Para a Polícia Federal, as mensagens reforçam a tese de que existia uma estrutura privada armada, organizada e mobilizada para atender interesses específicos do grupo investigado.

Outro diálogo citado no relatório aumenta ainda mais a preocupação dos investigadores. Em setembro de 2025, Manoel Mendes relatou ter participado de uma reunião envolvendo policiais militares. Embora tenha afirmado que compareceu sozinho ao encontro, revelou ter mantido um atirador de elite à distância como medida de proteção.

“Botei um sniper de longe”, afirmou.

A PF observa que a expressão “sniper” é usada para designar atiradores especializados em disparos de precisão de longa distância. Para os investigadores, a declaração demonstra não apenas acesso a armamento especializado, mas também uma capacidade operacional incompatível com atividades privadas comuns de segurança.

As apurações também identificaram cobranças financeiras feitas por Manoel Mendes a Henrique Vorcaro para manter a estrutura funcionando. Em áudios analisados pela PF, Manoel afirma precisar de pelo menos R$ 200 mil para quitar despesas relacionadas à segurança e ao pagamento de integrantes do grupo.

Segundo os investigadores, os diálogos sugerem a existência de pagamentos regulares destinados à manutenção da estrutura armada.

A operação também atingiu Anderson Wander da Silva Lima, policial federal da ativa apontado como integrante de um núcleo conhecido como “A Turma”. Ele foi preso em flagrante após a apreensão de um revólver calibre .38 com numeração raspada.

Após perícia, os técnicos conseguiram recuperar parcialmente a identificação da arma. No entanto, a consulta aos sistemas oficiais não encontrou qualquer registro correspondente. A Polícia Federal concluiu que o armamento era, na prática, “irrastreável”, sem vinculação formal a qualquer proprietário.

Durante as buscas, os investigadores encontraram ainda uma segunda arma com indícios de adulteração, além de um arsenal considerado incompatível com as funções desempenhadas pelo policial.

Segundo o relatório, foram apreendidas cinco armas de fogo, 18 carregadores e 1.192 munições de diversos calibres. Entre elas, 182 munições de fuzil calibre 5.56.

A PF destaca que Anderson não integrava grupos táticos nem exercia funções operacionais que justificassem a posse de tamanho volume de armamento e munição de alto calibre.

Para os investigadores, o conjunto de provas reforça a suspeita de que havia uma organização estruturada, com forte capacidade operacional, acesso a armamento pesado e vínculos com interesses empresariais investigados no âmbito da Operação Compliance Zero.

As investigações continuam em andamento e buscam esclarecer a extensão da atuação do grupo, sua fonte de financiamento e o papel de cada um dos envolvidos no esquema.

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