Saúde do intestino pode ajudar a reduzir ansiedade e depressão, apontam estudos

Pesquisas realizadas em diferentes países vêm reforçando uma ideia que há alguns anos parecia improvável para muitas pessoas: a saúde intestinal exerce influência direta sobre o funcionamento do cérebro e pode desempenhar um papel importante na prevenção e no tratamento de transtornos mentais como ansiedade e depressão.
Nos últimos cinco anos, diversos estudos científicos passaram a aprofundar a compreensão sobre o chamado eixo intestino-cérebro, sistema de comunicação que conecta o trato digestivo ao sistema nervoso central. Os resultados apontam que a alimentação, especialmente o consumo de fibras e alimentos fermentados, pode impactar o humor, a cognição e até mesmo as respostas do organismo ao estresse.
Uma das pesquisas mais recentes foi conduzida por cientistas da Turquia. Os pesquisadores observaram que alimentos fermentados como kefir, iogurte, kombucha, missô e tempeh promovem alterações positivas na microbiota intestinal e ajudam a proteger o sistema nervoso. Segundo os autores, os compostos produzidos durante o processo de fermentação atuam diretamente sobre neurotransmissores e mecanismos ligados ao estresse oxidativo, contribuindo para a redução de sintomas associados à ansiedade e à depressão.
O estudo também identificou efeitos relacionados à melhora da função cognitiva e à diminuição de processos inflamatórios que afetam o cérebro. Além disso, foram observados benefícios no funcionamento do eixo Hipotálamo-Pituitária-Adrenal (HPA), responsável por regular as respostas do organismo diante de situações estressantes.
Resultados semelhantes foram encontrados em uma pesquisa realizada na Coreia do Sul, que avaliou aproximadamente 21 mil adultos. Os cientistas verificaram que pessoas com maior consumo de vegetais fermentados e derivados de soja apresentavam menor incidência de sintomas depressivos e pensamentos suicidas. A explicação estaria na ação de bactérias benéficas, especialmente do gênero Lactobacillus, que influenciam a produção de substâncias como serotonina e dopamina, neurotransmissores diretamente ligados ao bem-estar emocional.
Outra investigação, conduzida por pesquisadores iranianos, aprofundou o entendimento sobre a comunicação entre intestino e cérebro. O estudo analisou como sinais neurais, hormonais e imunológicos circulam entre os dois sistemas por meio do nervo vago e de metabólitos produzidos pelas bactérias intestinais. Os resultados reforçam a importância das fibras alimentares na produção de substâncias neuroprotetoras e indicam que tratamentos personalizados, baseados no microbioma individual de cada pessoa, podem representar um novo caminho para o enfrentamento dos transtornos de humor.
Para a nutricionista Fabiana Poltronieri, diretora da Associação Brasileira de Nutrição (Asbran), a ideia de que o intestino funciona como uma espécie de “segundo cérebro” tem respaldo científico. Segundo ela, o sistema digestivo mantém uma conexão constante com o sistema nervoso central através do chamado eixo intestino-cérebro.
“O intestino possui seu próprio sistema nervoso, conhecido como Sistema Nervoso Entérico, que atua de forma independente dentro do trato gastrointestinal. Essa comunicação permanente com o cérebro explica por que a alimentação pode influenciar tanto a saúde mental quanto o equilíbrio emocional”, destaca a especialista.
Poltronieri explica que alimentos ricos em fibras, prebióticos e probióticos servem de alimento para os microrganismos que compõem a microbiota intestinal. Quanto mais equilibrada for essa população de bactérias benéficas, maiores tendem a ser os benefícios para o organismo.
A médica Renata Cortella, especialista em avaliação metabólica e nutricional, ressalta que a influência do intestino vai além da saúde mental. Segundo ela, cerca de 70% a 80% das células do sistema imunológico estão concentradas no intestino, tornando o microbioma um dos principais reguladores das defesas do organismo.
De acordo com a médica, as bactérias intestinais ajudam o corpo a diferenciar agentes nocivos de substâncias inofensivas, além de produzirem compostos capazes de reduzir inflamações e fortalecer a imunidade.
As descobertas também ajudam a explicar por que alterações na microbiota podem estar associadas a transtornos emocionais. Cortella cita pesquisas que demonstraram que a transferência de microbiota intestinal de pessoas com depressão para animais de laboratório foi capaz de reproduzir comportamentos semelhantes aos observados em quadros depressivos.
Apesar dos avanços científicos, os especialistas alertam que a alimentação, sozinha, não resolve todos os problemas relacionados à saúde mental. Sono adequado, prática regular de atividades físicas, convivência social saudável, acompanhamento médico e fatores genéticos continuam desempenhando papel fundamental no equilíbrio emocional.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o consumo diário de pelo menos 400 gramas de frutas, legumes e verduras para promover uma alimentação equilibrada e contribuir para a prevenção de diversas doenças.
Além disso, especialistas reforçam a importância de diversificar os alimentos consumidos. Cereais integrais, frutas, hortaliças, sementes, leguminosas, raízes e oleaginosas ajudam a ampliar a variedade da microbiota intestinal, favorecendo a produção de substâncias anti-inflamatórias e contribuindo para uma melhor saúde metabólica.
Para os pesquisadores, a crescente compreensão da relação entre microbiota, sistema imunológico e funcionamento cerebral abre caminho para novas estratégias preventivas e tratamentos personalizados, capazes de promover não apenas a saúde digestiva, mas também o bem-estar físico e emocional.








